sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Surrealismo na sala de aula I

É um dos jogos inventados pelos surrealistas, em 1925, para provocar a livre associação de ideias, palavras ou de imagens, fora do contexto habitual e até logicamente compreensível.
O objectivo último do jogo é o de explorar os efeitos do acaso e do acidental na criação artística, vislumbrando uma pequena parte das profundezas do nosso inconsciente.
Este jogo poderá ser jogado de várias formas e já foi explorado em diferentes expressões artísticas: Poesia, Literatura, Desenho, Pintura, Banda Desenhada e até no Cinema.

Em contexto da sala de aula, após uma introdução ao movimento Surrealista, é possível propor aos alunos, divididos em grupos de 5, o seguinte:
- dois alunos escrevem, em vários pedaços de papel que serão depois dobrados, diferentes substantivos;
- um dos outros alunos escreve, também em vários pedaços de papel, verbos- os outros dois alunos escrevem adjectivos noutros pedaços de papel.
Cada papel é dobrado, escrevendo-se por fora o que se encontra lá escrito (se um substantivo, um verbo ou adjectivo). Metem-se depois dentro de um saco ou separam-se, em três montinhos.
É importante que os alunos não tenham combinado entre si as palavras que escolheram, sendo o efeito surpresa uma das mais-valias do jogo.
Alguém vai tirando os papelinhos à escolha, puramente ao acaso, ordenando-os (sem os desdobrar) pela seguinte ordem:
substantivo - adjectivo - verbo - substantivo - adjectivo.
Abrindo-se os papelinhos, descobrem-se, com surpresa, resultados inesperados e associações absurdas, que proporcionam momentos hilariantes e até alguma rara profundidade psicológica, puramente acidental...
O primeiro exemplo do jogo tornou-se num clássico, porque a primeira frase obtida foi:
“Le cadavre - exquis - boira - le vin - nouveau” (O cadáver esquisito beberá o vinho novo).

Vejam alguns exemplos que os meus alunos fizeram:

A sanita amiga corre no pote flácido.
A estação porca captura a grade negra.
O ponteiro estúpido purifica a água afiada.
A fonte repugnante come com o lixo diabólico.
O Pedro psicopata voa numa banana maldosa.
A tomada brilhante corre com o telefone inteligente.
O bloco gordo come o lixeiro feio.
O trompete parolo regateia o buraco otário.
O ânus verde salta no monte estranho.
As ceroulas carecas picam a couve roxa.
A lâmpada esquisita roeu a bola esquizofrénica.
A cadeira peluda chamou a torneira podre.
O macaco roto fugiu do apito avariado.
A tela moribunda cortou o bidé grosso.
A borracha verde faz a janela vermelha.
O leão estranho comeu o banho responsável.

Outra alternativa é escrever duas linhas de um texto inventado, numa folha de papel, deixando a última palavra na terceira linha. Dobra-se o papel e passa-se a outro, para ele continuar a escrever, mas de modo a que ele não leia o que está escrito nas duas primeiras linhas, mas apenas a palavra escrita na última linha e assim sucessivamente.
Experimentei fazer esta actividade duas vezes com os meus alunos (ainda que nem todos tenham querido participar) e os resultados surpreendentes e, a meu ver, admiráveis, foram os seguintes (as barras (/) separam os textos escritos por autores diferentes):

"A tormenta antecede o momento em que a ternura lamacenta lentamente se intensifica. / O prazer continua e nunca mais acaba, tornando ainda o momento mais fascinante, / pelo poder que temos sobre os animais. Podemos pegar numa espingarda e mandar um elefante abaixo, porque ele não tem poder sobre as armas de fogo. / Era mesmo fogo! Fiquei sem nada! Lá ardeu a casa e o bairro inteiro. Que tragédia! / Desgraça! Morte, cinzas e negro! Cadáveres queimados. Silêncio... Os olhos encheram-se de lágrimas e os punhos fecharam-se. / Sem dizer nada, sem explicação nenhuma..."

"Delicadamente acompanho o ritmo da canção que entoas na eternidade musical, entre momentos de contentamento e de ternura, / é o que eu sinto por aquele animal. Aquela autêntica besta com a qual me divirto todos os dias, sempre ansiando por uma vida melhor, uma vida mais feliz. / Pois feliz para toda a vida serei eu contigo a meu lado. Onde iremos ter os nossos próprios momentos, estes que serão virtuosos com o máximo prazer! Adoro-te cada vez mais! / O tempo escasseia, o ritmo aumenta, tudo se une e assim a criação surge / do infinito, sabendo que não atingirá o seu fim, pintar as formigas que não existem, usando o fogo das paredes cheias de quadros vazios do animal que não imaginas,/ mas é que não imaginas mesmo o que te pode acontecer, caso sejas um insecto e estejas a voar numa auto-estrada, podes muito bem ser esmigalhado. / Sangue por toda a parte, mortes, terror, tristeza e medo, tudo derivado dele, pessoas a chorar, um desastre total, catástrofe, / e tudo o mais que pode vir a acontecer assusta-nos e preocupa-nos, deixando em nós uma sensação de receio, uma fragilidade. / Com um pequeno toque, pode partir. Magoa, aleija. Consegue perfurar o insensível, deixando uma sensação de amargura e mal-estar constante. Meu Deus, como pode doer tanto? Como pode um simples toque criar tal sensação? / Não, porque a sensação é feita da transpiração das armas e das balas de rosa, que continuam a modificar a atmosfera."

Obrigada a todos os meus alunos do 11ºF que participaram nesta pequena aventura surrealista...

5 comentários:

jorge correia disse...

mais uma vez digo, que esta experiência surrealista foi muito boa..:)

e este blog com certeza que vai ter muito sucesso visto que os trabalhos que aqui vao ser postos têm qualidade (a meu ver)..."artecétera"..

Avelelas disse...

Esperemos k este blog tenha muito sucesso, e k a turma do 11ª F fika nao historia das turmas de arte desta escola...

:D

Avelelas disse...

*fike na historia

Daniel Monteiro disse...

mt bom este blog... tem tudo para o ser diria eu ...mas penso k ficaria melhor se o nome fosse "MAMARTE" :D... a TENTAR k algo de minha autoria tenha qualidade o suficiente para aqui estar....

Ana Catarina disse...

Muito engraçado o produto final dessa iniciativa surrealista.